quarta-feira, 13 de março de 2019

livro 2, cap 2

Catherine


Dois dias tinham se passado, Gus não se abria comigo, mas ele era engraçado, ele tinha se mostrado um senso de humor inabalável, e sempre sorrindo, achava instigante ele ter essa força de vontade, mesmo sem enxergar, sempre querendo o melhor. Tivemos aulas hoje com a Sra. Tribeca, minha preferida novamente, mas era na aula de pintura, ela como compreendia que éramos iniciantes nos deu uma tela em branco para cada um pintar, e me espantei ao ver que fiquei curiosa o que Gus faria.

Olhei para a tela nervosa.
Tudo bem, é só uma tela.
Ela não vei lhe morder nem muito menos te xingar.
Lembrei do que minha mãe me disse anos atrás quando tentara esculpir algo com barro.

" É só barro, meu anjo, o que você sente?" ela acariciou minhas costas e beijou o topo de minha cabeça.
" Sinto dor." pisquei os olhos e lágrimas rolavam em minhas bochechas.
" Minha ursinha, não vai ser assim para sempre." prometeu, foi só um relacionamento que não deu certo.
" Eu sei." disse olhando para a meleca de barro que estava na minha frente.

Queria tanto que ela soubesse que não era por um relacionamento besta que eu estava sofrendo, queria contar lhe tudo, queria lhe dizer o que andavam falando sobre mim, sobre o que havia realmente acontecido.

" O que estão aprontando? Reunião de garotas?" papai havia acabado de chegar do trabalho sorrindo, como sempre, a positividade na minha família era forte.
" Pai, qual seu animal preferido?" perguntei à ele enxugando minhas lágrimas.
" Boa pergunta Aubrey." ele sempre me chamava pelo segundo nome " Qual o seu preferido?" rebateu.
" Coruja, eu acho, tem olhos enormes, conseguem ouvir, sentir, são tão lindas..." me peguei sorrindo lembrando das corujas do filme de Harry Potter.
" Faça uma coruja, sabedoria, é a chave, sabedoria para lidar com problemas, para decidir, sabedoria é uma linda palavra."  minha mãe respondeu e eu assenti.

  Pisquei os olhos me tirando de meu passado, suspirei e olhei para a tela, todos haviam começado. O que eu estava sentindo? Eu estava feliz, empolgada com meu futuro, e nostálgica com as tardes com minha mãe, então porque não misturar as três coisas? Decidi fazer a torre Eiffel, minha rua centralizada como se eu morasse em Paris, que sonho seria. Era outono em minha pintura, fiz árvores com folhas alaranjadas, carros antigos simbolizando o passado, cores quentes, eu me sentia fervendo de emoções, para alguns não tinha sentido, mas quem tinha que sentir a arte, era eu. Deslizava o pincel com facilidade, havia desenhado a torre milhares de vezes, e molhei o pincel dando destaque aos tons aquarela, como se fosse reflexo de um rio, pois claro, tudo ainda era imaginário, era em minha mente, e quando parei, olhei para Gus, de dez à zero, ele tinha me nocauteado com um onze, e detalhe, ele não enxergava.

Abismada com seu talento, suas tintas tinham braile indicando as cores, como ele conseguia? Eu... 

"Isso é incrível." deixei escapar e fui para o lado dele.
" Cath?" me perguntou e toquei em seu ombro.
" Você... meu Deus Angus." meu sorriso não saia do rosto, ele havia desenhado uma simples paisagem, mas as cores no céu, as cores entrelaçadas como duas mãos de dois apaixonados, havia um lago, com reflexos de pequenas casinhas na beira, me lembrava um lugar onde eu passava as férias, isso era inacreditável, que se eu contasse, não acreditariam no que eu estava vendo, seu talento não era aumentado por ser cego, era aumentado por ser ele mesmo.
" Acha que está bom?" ele me perguntou e eu assenti esquecendo que ele não me via.
" Incrível Gus, maravilhoso, eu estou....nossa" suspirei e logo a Sra. Tribeca se aproximou " Não é lindo?"
" Fascinante Angus, bom trabalho." ela sorriu e se afastou, claro que ela não podia ficar puxando saco, mas de longe ela sorriu para mim e eu entendi o quis dizer, era realmente inacreditável.

  Me afastei e os olhares foram para Angus, um dia eu iria descobrir como ele conseguia, talvez ele era cego de um olho, ou se fingia ou não sei, tinha que ter alguma explicação. Sorri ao ver ele terminar sua arte, ele tateou sua tela, manchando tudo, misturando, lago virou casa, árvores viraram um borrão, como se tudo tivesse sido passado correndo e visto de relance, e pela primeira vez, talvez eu tenha entendido o que ele quis dizer em sua arte, sorri para ele, e ele me olhou, como sempre, ele sabia que eu estava o olhando, que droga, ele sorriu para mim.

"Ainda acha incrível?" ele me perguntou.
" Com certeza." respondi e seu sorriso sumiu, talvez ele estivesse esperando que eu o comparasse com uma criança de cinco anos pintando, se sujando e borrando inteiro, mas logo seu sorriso apareceu de volta e se virou meneando a cabeça sem parar.


  Era a última aula do dia, não achava que evolução da arte seria chato, mas essa professora fez o inferno, ela deu uma pequena introdução do que faríamos durante o ano inteiro, estávamos em agosto, então seria praticamente esse meio de ano e depois das férias de inverno. Olhei para Gus que estava um pouco confuso com a introdução, ou talvez eu achasse isso, ele digitava em sua miniatura sem dificuldade, e eu digitava em meu notebook.

"Por que me observa tanto?" ele me perguntou.
" Acho interessante como manualiza sua miniatura." comentei baixo para que a professora não nos ouvisse.
" Sei que não é só por isso." ele comentou suspirando "É por que? Diga a verdade."
" Você me chama atenção." respondi brevemente, e era verdade.

  Ele assentiu e deve ter criado mil hipóteses em suas mente, mas eu só gostava de observa-lo, gostava de ver seu modo de vida, sem contar que ele era pra lá de lindo, daqueles que nunca se sentaria comigo no intervalo, e eu sentia que não precisava ficar nervosa com ele, pois ele não me via, então, não sabia minha aparência e talvez no meu subconsciente isso era bom, sabia que ele não iria me julgar.

" Me acha atraente?" ele soltou essa dúvida no ar " É a única opção para me observar e chamar sua atenção."
" A-ah... Como é?" perguntei dessa vez gaguejando.
" Pode responder, não sei como eu sou." respondeu casualmente " Sei que sou branco e meu cabelo é loiro, certo?"
" Mais ou menos, você tem uma pele bem branca, algumas pintinhas eu diria, algumas pequenas, outras grandes, como uma chuva." digo analisando suas sardas pelo corpo inteiro " Seu cabelo ta longe de ser loiro." digo rindo.
" Pelo menos quando eu era criança, eu era loiro."deu ombros.
" Não sabe como é desde que tinha quantos anos?" perguntei, deduzi que ele perderá a visão quando era criança, então ele nunca fora cego.
" Acho que com sete, oito anos, por ai, mas só alguns flashes mesmo." 
" Você é lindo, pode confiar." escapou sem querer e vi seu sorriso crescer, suas bochechas coraram rapidamente.


 Paris iria acontecer. Olhando meu dinheiro em minha carteira sorri. Mandei mensagem para Abby pedindo que me buscasse no fim de meu turno, já que ela tinha ficado com o carro e dividíamos ele, andar de ônibus, trem ou metrô a noite era perigoso demais, independente da cidade, eu tinha um trauma, então me recusava

" Tem uma mesa esperando por você." Joan me disse e eu suspirei, olhei para minha zona e reconheci seu rosto, Logan, aquele garoto que estava com seu primo dias atrás.
" Pelo menos esta sozinho." sorri para Joan.
" Minha garçonete preferida." Logan sorriu.
" Olá, Logan." disse sem mostrar os dentes.
" O que você estava fazendo com Gus?" ele me olhou sério " E porque tenho a sensação de que você trabalha para o pai dele?"
" Como?" meu corpo gelou.
" Esta é a lanchonete do pai do Gus, sempre venho aqui, sabia?" ele comentou.
" Ah, eu notei." ri de leve " Bom, eu estava precisando para me bancar na universidade e Sr. Warley foi muito gentil em me contratar."
" Quanto tempo faz?" questionou, isso era da conta dele?
" Uns meses, acredito." respondi pegando meu bloco e minha caneta " O mesmo de sempre?"
" Gus sabe disso?" neguei com a cabeça " Moramos juntos, sabia disso?" também neguei a cabeça surpresa.
" Que vínculo." respondi e ele riu.
" Mesmo de sempre, niña." disse, pelo visto ele era bilíngue. 
" Já trago." sorri e me afastei.

  Tinha que tomar cuidado, Logan e Gus moravam juntos, então deduzi que eram tão próximos quanto eu e Abby, se Logan suspeitasse de algo sobre mim ele contaria a Gus... mas que paranoia maldita, Sr. Warley estava viajando, pelo que ele me disse, estaria em uma longa semana de viagens, então não teria como me pegar, mas eu precisava de uma segunda opinião, sem ser minha mãe ou Abby. Joan era a pessoa certa, mas não hoje, não com Logan.

  De longe enquanto Joan preparava o pedido de Logan, ele piscou pra mim eu apenas sorri, será que ele acha que estou flertando? Ele estava com o telefone em mãos e então achei falta de educação continuar encara-lo, me virei e cuidei de outras mesas, Daisy pediu um dia de folga, então ficou mais corrido que o normal. Entreguei o pedido do casal de idosos, do grupo de líderes de torcida (o que eu achava um azar ter uma escola pública perto da lanchonete), e por último Logan, como sempre, ele quis puxar assunto.

" Acho que devemos sair." ele comentou e eu paralisei.
" Como é?" ri de leve.
" Qual é, você me parece bem interessante, sou estudante de educação física, e você de artes, temos algo em comum." ele sorriu, ele era um pouco mais baixo que Gus, cabelos castanhos claros, maxilar marcado, me lembrava muito aquele ator, como era o nome? Dylan O'brien, mas um pouco mais bonito e maduro, Gus me chamava mais atenção sem duvidas " Podíamos sair eu você e Gus se quiser para se sentir mais a vontade." sugeriu.
" Quem sabe uma próxima vez." sorri sem graça.
" Tá, tudo bem, e uma festa?" ele disse antes que me virasse.
" Festa?" perguntei e ele assentiu, sabia que Abby iria amar " De calouros?"
" Isso, por que não me manda uma mensagem mais tarde?" sorriu convencido de que eu iria, então me lembrei do que aconteceu em uma festa à três anos atrás.
" Eu aviso Gus." digo, mesmo não tendo o número dele, era apenas uma desculpa esfarrapada.
" Pode ser."

  Me afastei da mesa rindo, fui até Joan e a mesma riu quando contei a ela, por incrível que pareça, ela sabia de tudo sobre mim, havia contado cada detalhe, afinal ela tinha idade, ela era sábia, era a coruja da minha vida, minha caixinha de sabedoria.

" Minha querida, você deveria ir, aproveite que o rapaz parece ter um coração bom, não vejo maldade nele, mas sempre um pé atrás." sorriu "O que aconteceu já passou, não viva no passado Catherine."
" Eu sei Joan." suspirei, ela tinha razão, talvez eu devesse começar a tentar, era faculdade, mas ainda não queria ir à festas, mas parecia tão empolgante " O que custa tentar?" perguntei à mim mesma.
" Vá, ele está indo embora." ela bateu de leve em minhas costas e eu apenas ri.
" Logan, pode esperar um pouco?" pedi indo até ele " Posso ser bem sincera?"
" Deve." sorriu.
" Eu tenho um pequeno problema com festas, e tenho medo de ir, e eu estou com receio de ir na verdade." pela primeria vez fui sincera com alguém.
" Ninguém vai fazer nada, meu irmão também não curte festas, bom, podemos ir, você, Gus, e uma amiga sua talvez?" eu assenti " Leve ela, se não quiser ficar não tem problema, seja o que for não se prenda ao passado, eu me arrependi muito por isso." ele sorriu triste.
" Pode me mandar uma mensagem mais tarde? Irei demorar pra sair daqui." respondi, era um alívio, mas era estranho contar meus medos para alguém que conhecia fazia dois dias.
" Tudo bem."

  Passei meu celular para ele, que o mesmo sorriu e saiu da lanchonete, me sentindo confusa e indecisa, talvez com um pouco de medo voltei ao trabalho, ainda tinha duas horas pela frente. Fui até o banheiro e digitei uma mensagem para Abby sobre a festa, a mesma respondeu que topava, e em seguida Logan me mandou mensagem.

Só para confirmar se esse era seu número.
Jamais mentiria, nos falamos mais tarde xx.

  Abby chegou depois de duas horas e meia, que foi o tempo exato que demorei para sair,  eu estava atrasada, como sempre, meus clientes da mesa demoraram para sair. Por sorte a garota que entra em meu lugar no turno da noite chegou antes e disse que tomava conta, se não eu aina estaria lá.

"Acha que devemos ir a festa?" Abby ligou o carro quando me sentei no banco.
" Cath, está na hora, não?" sorriu fraco " Não me leve a mal, mas você não é mais aquela garota do ensino médio, já passou entendeu? Chega de fugir de quem você é."
" Isso foi duro." ela riu " Obrigada, vamos tentar certo?" tentar, tinha medo de tentar todo tempo.
" E quem lhe convidou para festa?" Abby sorriu enquanto dirigia.
" Ele se chama Logan, mora com Gus, acho que você gostaria dele, talvez vocês formariam um lindo casal." provoquei e ela riu tombando a cabeça para trás.
" Ai Cath, tão linda, fofa, e piadista." sorriu " Vamos ver sábado."
" Como sabe que é sábado?" 
" Todos sabem que a calourada é sábado, menos você, desinformada."