quarta-feira, 13 de março de 2019

livro 2, cap 2

Catherine


Dois dias tinham se passado, Gus não se abria comigo, mas ele era engraçado, ele tinha se mostrado um senso de humor inabalável, e sempre sorrindo, achava instigante ele ter essa força de vontade, mesmo sem enxergar, sempre querendo o melhor. Tivemos aulas hoje com a Sra. Tribeca, minha preferida novamente, mas era na aula de pintura, ela como compreendia que éramos iniciantes nos deu uma tela em branco para cada um pintar, e me espantei ao ver que fiquei curiosa o que Gus faria.

Olhei para a tela nervosa.
Tudo bem, é só uma tela.
Ela não vei lhe morder nem muito menos te xingar.
Lembrei do que minha mãe me disse anos atrás quando tentara esculpir algo com barro.

" É só barro, meu anjo, o que você sente?" ela acariciou minhas costas e beijou o topo de minha cabeça.
" Sinto dor." pisquei os olhos e lágrimas rolavam em minhas bochechas.
" Minha ursinha, não vai ser assim para sempre." prometeu, foi só um relacionamento que não deu certo.
" Eu sei." disse olhando para a meleca de barro que estava na minha frente.

Queria tanto que ela soubesse que não era por um relacionamento besta que eu estava sofrendo, queria contar lhe tudo, queria lhe dizer o que andavam falando sobre mim, sobre o que havia realmente acontecido.

" O que estão aprontando? Reunião de garotas?" papai havia acabado de chegar do trabalho sorrindo, como sempre, a positividade na minha família era forte.
" Pai, qual seu animal preferido?" perguntei à ele enxugando minhas lágrimas.
" Boa pergunta Aubrey." ele sempre me chamava pelo segundo nome " Qual o seu preferido?" rebateu.
" Coruja, eu acho, tem olhos enormes, conseguem ouvir, sentir, são tão lindas..." me peguei sorrindo lembrando das corujas do filme de Harry Potter.
" Faça uma coruja, sabedoria, é a chave, sabedoria para lidar com problemas, para decidir, sabedoria é uma linda palavra."  minha mãe respondeu e eu assenti.

  Pisquei os olhos me tirando de meu passado, suspirei e olhei para a tela, todos haviam começado. O que eu estava sentindo? Eu estava feliz, empolgada com meu futuro, e nostálgica com as tardes com minha mãe, então porque não misturar as três coisas? Decidi fazer a torre Eiffel, minha rua centralizada como se eu morasse em Paris, que sonho seria. Era outono em minha pintura, fiz árvores com folhas alaranjadas, carros antigos simbolizando o passado, cores quentes, eu me sentia fervendo de emoções, para alguns não tinha sentido, mas quem tinha que sentir a arte, era eu. Deslizava o pincel com facilidade, havia desenhado a torre milhares de vezes, e molhei o pincel dando destaque aos tons aquarela, como se fosse reflexo de um rio, pois claro, tudo ainda era imaginário, era em minha mente, e quando parei, olhei para Gus, de dez à zero, ele tinha me nocauteado com um onze, e detalhe, ele não enxergava.

Abismada com seu talento, suas tintas tinham braile indicando as cores, como ele conseguia? Eu... 

"Isso é incrível." deixei escapar e fui para o lado dele.
" Cath?" me perguntou e toquei em seu ombro.
" Você... meu Deus Angus." meu sorriso não saia do rosto, ele havia desenhado uma simples paisagem, mas as cores no céu, as cores entrelaçadas como duas mãos de dois apaixonados, havia um lago, com reflexos de pequenas casinhas na beira, me lembrava um lugar onde eu passava as férias, isso era inacreditável, que se eu contasse, não acreditariam no que eu estava vendo, seu talento não era aumentado por ser cego, era aumentado por ser ele mesmo.
" Acha que está bom?" ele me perguntou e eu assenti esquecendo que ele não me via.
" Incrível Gus, maravilhoso, eu estou....nossa" suspirei e logo a Sra. Tribeca se aproximou " Não é lindo?"
" Fascinante Angus, bom trabalho." ela sorriu e se afastou, claro que ela não podia ficar puxando saco, mas de longe ela sorriu para mim e eu entendi o quis dizer, era realmente inacreditável.

  Me afastei e os olhares foram para Angus, um dia eu iria descobrir como ele conseguia, talvez ele era cego de um olho, ou se fingia ou não sei, tinha que ter alguma explicação. Sorri ao ver ele terminar sua arte, ele tateou sua tela, manchando tudo, misturando, lago virou casa, árvores viraram um borrão, como se tudo tivesse sido passado correndo e visto de relance, e pela primeira vez, talvez eu tenha entendido o que ele quis dizer em sua arte, sorri para ele, e ele me olhou, como sempre, ele sabia que eu estava o olhando, que droga, ele sorriu para mim.

"Ainda acha incrível?" ele me perguntou.
" Com certeza." respondi e seu sorriso sumiu, talvez ele estivesse esperando que eu o comparasse com uma criança de cinco anos pintando, se sujando e borrando inteiro, mas logo seu sorriso apareceu de volta e se virou meneando a cabeça sem parar.


  Era a última aula do dia, não achava que evolução da arte seria chato, mas essa professora fez o inferno, ela deu uma pequena introdução do que faríamos durante o ano inteiro, estávamos em agosto, então seria praticamente esse meio de ano e depois das férias de inverno. Olhei para Gus que estava um pouco confuso com a introdução, ou talvez eu achasse isso, ele digitava em sua miniatura sem dificuldade, e eu digitava em meu notebook.

"Por que me observa tanto?" ele me perguntou.
" Acho interessante como manualiza sua miniatura." comentei baixo para que a professora não nos ouvisse.
" Sei que não é só por isso." ele comentou suspirando "É por que? Diga a verdade."
" Você me chama atenção." respondi brevemente, e era verdade.

  Ele assentiu e deve ter criado mil hipóteses em suas mente, mas eu só gostava de observa-lo, gostava de ver seu modo de vida, sem contar que ele era pra lá de lindo, daqueles que nunca se sentaria comigo no intervalo, e eu sentia que não precisava ficar nervosa com ele, pois ele não me via, então, não sabia minha aparência e talvez no meu subconsciente isso era bom, sabia que ele não iria me julgar.

" Me acha atraente?" ele soltou essa dúvida no ar " É a única opção para me observar e chamar sua atenção."
" A-ah... Como é?" perguntei dessa vez gaguejando.
" Pode responder, não sei como eu sou." respondeu casualmente " Sei que sou branco e meu cabelo é loiro, certo?"
" Mais ou menos, você tem uma pele bem branca, algumas pintinhas eu diria, algumas pequenas, outras grandes, como uma chuva." digo analisando suas sardas pelo corpo inteiro " Seu cabelo ta longe de ser loiro." digo rindo.
" Pelo menos quando eu era criança, eu era loiro."deu ombros.
" Não sabe como é desde que tinha quantos anos?" perguntei, deduzi que ele perderá a visão quando era criança, então ele nunca fora cego.
" Acho que com sete, oito anos, por ai, mas só alguns flashes mesmo." 
" Você é lindo, pode confiar." escapou sem querer e vi seu sorriso crescer, suas bochechas coraram rapidamente.


 Paris iria acontecer. Olhando meu dinheiro em minha carteira sorri. Mandei mensagem para Abby pedindo que me buscasse no fim de meu turno, já que ela tinha ficado com o carro e dividíamos ele, andar de ônibus, trem ou metrô a noite era perigoso demais, independente da cidade, eu tinha um trauma, então me recusava

" Tem uma mesa esperando por você." Joan me disse e eu suspirei, olhei para minha zona e reconheci seu rosto, Logan, aquele garoto que estava com seu primo dias atrás.
" Pelo menos esta sozinho." sorri para Joan.
" Minha garçonete preferida." Logan sorriu.
" Olá, Logan." disse sem mostrar os dentes.
" O que você estava fazendo com Gus?" ele me olhou sério " E porque tenho a sensação de que você trabalha para o pai dele?"
" Como?" meu corpo gelou.
" Esta é a lanchonete do pai do Gus, sempre venho aqui, sabia?" ele comentou.
" Ah, eu notei." ri de leve " Bom, eu estava precisando para me bancar na universidade e Sr. Warley foi muito gentil em me contratar."
" Quanto tempo faz?" questionou, isso era da conta dele?
" Uns meses, acredito." respondi pegando meu bloco e minha caneta " O mesmo de sempre?"
" Gus sabe disso?" neguei com a cabeça " Moramos juntos, sabia disso?" também neguei a cabeça surpresa.
" Que vínculo." respondi e ele riu.
" Mesmo de sempre, niña." disse, pelo visto ele era bilíngue. 
" Já trago." sorri e me afastei.

  Tinha que tomar cuidado, Logan e Gus moravam juntos, então deduzi que eram tão próximos quanto eu e Abby, se Logan suspeitasse de algo sobre mim ele contaria a Gus... mas que paranoia maldita, Sr. Warley estava viajando, pelo que ele me disse, estaria em uma longa semana de viagens, então não teria como me pegar, mas eu precisava de uma segunda opinião, sem ser minha mãe ou Abby. Joan era a pessoa certa, mas não hoje, não com Logan.

  De longe enquanto Joan preparava o pedido de Logan, ele piscou pra mim eu apenas sorri, será que ele acha que estou flertando? Ele estava com o telefone em mãos e então achei falta de educação continuar encara-lo, me virei e cuidei de outras mesas, Daisy pediu um dia de folga, então ficou mais corrido que o normal. Entreguei o pedido do casal de idosos, do grupo de líderes de torcida (o que eu achava um azar ter uma escola pública perto da lanchonete), e por último Logan, como sempre, ele quis puxar assunto.

" Acho que devemos sair." ele comentou e eu paralisei.
" Como é?" ri de leve.
" Qual é, você me parece bem interessante, sou estudante de educação física, e você de artes, temos algo em comum." ele sorriu, ele era um pouco mais baixo que Gus, cabelos castanhos claros, maxilar marcado, me lembrava muito aquele ator, como era o nome? Dylan O'brien, mas um pouco mais bonito e maduro, Gus me chamava mais atenção sem duvidas " Podíamos sair eu você e Gus se quiser para se sentir mais a vontade." sugeriu.
" Quem sabe uma próxima vez." sorri sem graça.
" Tá, tudo bem, e uma festa?" ele disse antes que me virasse.
" Festa?" perguntei e ele assentiu, sabia que Abby iria amar " De calouros?"
" Isso, por que não me manda uma mensagem mais tarde?" sorriu convencido de que eu iria, então me lembrei do que aconteceu em uma festa à três anos atrás.
" Eu aviso Gus." digo, mesmo não tendo o número dele, era apenas uma desculpa esfarrapada.
" Pode ser."

  Me afastei da mesa rindo, fui até Joan e a mesma riu quando contei a ela, por incrível que pareça, ela sabia de tudo sobre mim, havia contado cada detalhe, afinal ela tinha idade, ela era sábia, era a coruja da minha vida, minha caixinha de sabedoria.

" Minha querida, você deveria ir, aproveite que o rapaz parece ter um coração bom, não vejo maldade nele, mas sempre um pé atrás." sorriu "O que aconteceu já passou, não viva no passado Catherine."
" Eu sei Joan." suspirei, ela tinha razão, talvez eu devesse começar a tentar, era faculdade, mas ainda não queria ir à festas, mas parecia tão empolgante " O que custa tentar?" perguntei à mim mesma.
" Vá, ele está indo embora." ela bateu de leve em minhas costas e eu apenas ri.
" Logan, pode esperar um pouco?" pedi indo até ele " Posso ser bem sincera?"
" Deve." sorriu.
" Eu tenho um pequeno problema com festas, e tenho medo de ir, e eu estou com receio de ir na verdade." pela primeria vez fui sincera com alguém.
" Ninguém vai fazer nada, meu irmão também não curte festas, bom, podemos ir, você, Gus, e uma amiga sua talvez?" eu assenti " Leve ela, se não quiser ficar não tem problema, seja o que for não se prenda ao passado, eu me arrependi muito por isso." ele sorriu triste.
" Pode me mandar uma mensagem mais tarde? Irei demorar pra sair daqui." respondi, era um alívio, mas era estranho contar meus medos para alguém que conhecia fazia dois dias.
" Tudo bem."

  Passei meu celular para ele, que o mesmo sorriu e saiu da lanchonete, me sentindo confusa e indecisa, talvez com um pouco de medo voltei ao trabalho, ainda tinha duas horas pela frente. Fui até o banheiro e digitei uma mensagem para Abby sobre a festa, a mesma respondeu que topava, e em seguida Logan me mandou mensagem.

Só para confirmar se esse era seu número.
Jamais mentiria, nos falamos mais tarde xx.

  Abby chegou depois de duas horas e meia, que foi o tempo exato que demorei para sair,  eu estava atrasada, como sempre, meus clientes da mesa demoraram para sair. Por sorte a garota que entra em meu lugar no turno da noite chegou antes e disse que tomava conta, se não eu aina estaria lá.

"Acha que devemos ir a festa?" Abby ligou o carro quando me sentei no banco.
" Cath, está na hora, não?" sorriu fraco " Não me leve a mal, mas você não é mais aquela garota do ensino médio, já passou entendeu? Chega de fugir de quem você é."
" Isso foi duro." ela riu " Obrigada, vamos tentar certo?" tentar, tinha medo de tentar todo tempo.
" E quem lhe convidou para festa?" Abby sorriu enquanto dirigia.
" Ele se chama Logan, mora com Gus, acho que você gostaria dele, talvez vocês formariam um lindo casal." provoquei e ela riu tombando a cabeça para trás.
" Ai Cath, tão linda, fofa, e piadista." sorriu " Vamos ver sábado."
" Como sabe que é sábado?" 
" Todos sabem que a calourada é sábado, menos você, desinformada."











































segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Catherine


Era o primeiro dia de aula da faculdade, o que eu poderia esperar de novo? Ou melhor, o que eu não poderia esperar? Seria a mesma coisa que o ensino médio? Será que teria os grupos separados no refeitório, entres os nerds, os populares, os emos, e o meu grupo com Abby? Todos os meus medos passavam pelo meu corpo e estabilizavam em meus pensamentos. A ideia de sofrer novamente em mãos insensíveis era o que me assustava, eu tinha certeza que eu não era a única que tinha medo da faculdade, Abby também tinha, ela esteve comigo desde que me conheço por gente, por sorte estamos na mesma faculdade, não nas mesmas aulas, mas algumas até que batiam.

" Como acha que vai ser?" Abby me perguntou ao meu lado enquanto tomávamos nosso café da manhã.
" Estou assustada, como se um grupo de patricinhas estivessem lá fora para me ameaçar." rimos fraco, não era uma piada boa.
" Vai dar tudo certo, respire, estou com você." ela pôs sua mão sobre a minha enquanto eu cortava um pedaço de ovo em meu prato " Além do mais, fique esperta em Gus." ela sorriu.
" Me sinto mal, mas é meu sonho entende? Acho que tenho que pensar em mim um pouco, mas talvez seja egoísmo?" duvidei.
" O que tem medo pequena Catherine?" me perguntou " De se apaixonar? Dele descobrir e te odiar?" concordei com a cabeça sorrindo torto "Caso você se apegue, ou cruze a linha, apenas seja honesta e devolva o dinheiro para o pai dele, estamos de acordo?"
" São as paranoias que me fazem ficar assim, eu nem cheguei perto do garoto ainda." dei de ombros " Tenho que ter sangue de barata, eu preciso ir para Paris, eu tenho que conhecer Monalisa, temos um encontro marcado." sorri me imaginando em casa rua.
" Vamos lá garota, apenas fique de olho nele, não precisa ser amiga." Abby tinha razão.

  O fato de um pai não acreditar na capacidade do filho em uma faculdade de artes, eu não entendia, o Sr. Warley havia me mandado uma mensagem com a foto de seu filho, Gus, eu tinha que ficar de olho nele, era apenas isso, ser babá de um garoto de 19 anos, do tamanho de um poste, cabelos negros, e olhos extremamente escuros, não sabia o porque disso. Olhando como uma garota, ele era lindo, e saber que talvez eu teria contato com ele, me deixava arrepiada de medo, nunca fora boa em contato com os garotos.

" Amor meu, estou indo, até mais tarde." ela beijou minha bochecha, Abby sempre foi uma pessoa carinhosa, era como uma irmã para mim.
" Até." terminei meu café da manhã e limpei as coisas, olhei para o relógio e suspirei, estava na hora.


  Andei o campus inteiro procurando o prédio e Gus, mas apenas achei um deles: o prédio. O Sr. Warley fez questão de colocar Gus em todas as aulas comigo, tudo que eu faria, Gus faria, isso não era muito confortável, minha cabeça rodava só de pensar no futuro se algo desse errado, eu teria de vê-lo todos os dias. Ignorando os fatos e minhas paranoias, entrei no anfiteatro, todas as salas de aulas eram assim, me sentei e coloquei meu notebook em minha mesa e logo abri o bloco de notas. Eu estava vinte minutos adiantada, então olhei em minha volta, apenas eu e mais cinco pessoas no lugar enorme. Fechei o notebook e me levantei, estava com sede, e por sorte a sala de Filosofia tinha um bebedouro bem na entrada. Peguei minha garrafa e fui até lá.

  A ideia era encher a garrafa e beber a água, estava com o tronco agachado quando senti um corpo se chocar na lateral de meu quadril me fazendo engasgar com a água.

" Meu deus, eu não a vi, me desculpa mesmo." sua voz era, grossa, doce, e tinha um perfume que eu nunca sentirá, era único.
" Está tudo bem." tossi me erguendo e assim que parei para ver, o garoto olhava para baixo " Você está bem?"
" Sim, essa é a sala de Filosofia certo?" ele me perguntou, ele fitava seus pés, mas logo ergueu seu olhar para mim, ele encarava minhas bochechas e logo subiu, para meus olhos, me perguntava porque ele tinha feito isso.
" Claro, quer ajuda?" perguntei, era Gus.
" Não preciso, mas valeu, consigo sozinho." ele bufou, eu o ofendi?

  Ele passou por mim e o observei andar, lento e cauteloso, ele subiu as escadas como se fosse um padrão de passos, olhou para qualquer lugar vago e se sentou, fitei meu material, ele tinha se sentado uma fileira abaixo de mim, na mesma direção, entrei devagar e subi para o meu lugar, mas talvez ele tenha ou não notado que era eu atrás dele.

" Eu não preciso de ajuda." ele secamente cuspiu as palavras.
" Meu material estava aqui primeiro." murmurei.
" Desculpa." ele falou tão baixo de que quase não ouvi, ele abriu sua mochila e tateava sem olhar, pegou uma pequena máquia que eu diria que parecia uma miniatura de máquina de escrever, mas sem letras do abecedário, havia bolinha, era braile, oh... ele era cego.

  Uma pontada de tristeza tocou meu coração, juntamente com pena, mas ele parecia não precisar disso, ele sabia muito bem se virar, era uma máquina tão pequena que me perguntava onde iria o papel, quis saber, mas não o fiz.

" Não precisa ficar me olhando." ele se virou de perfil para mim, ele sentia meu olhar queimar suas costas largas.
" Me desculpa, não foi minha intenção, estou apenas curiosa."
" Com?" pediu que eu continuasse.
" Essa máquina, é bem fofa." assim que falei quebrando o gelo ele soltou uma risada gostosa, que poderia ouvir o dia todo "É sério, não ria de mim, é muito fofa, como você usa ela?"
" Bom, é bem tecnológico, eu digito os botões, e eles enviam para um tipo de bloco de notas, em meu computador em casa, e depois meu amigo me ajuda a imprimir, é assim que faço anotações, sobrevivi ao ensino médio, então porque não a faculdade?" e foi aí que entendi o porque de Sr. Warley se preocupar tanto, sobreviver ao ensino médio não era uma coisa normal, era uma fase importante de nossas vidas.
" Entendi, bom, eu adorei, é bem estiloso e fofo." comentei e ouvi sua risada, ele se virou para frente balançando a cabeça.


  Na aula tinha começado, tivemos apresentação do curso de Artes em si e das matérias, foi bem entediante, ás vezes eu olhava para Gus, ele olhava para frente, e se eu olhasse de longe nunca notaria nada, ele era extremamente alto, forte, cheiroso, é um ponto bem forte, um pouco orgulhoso, mas com meu entendimento. Já que tínhamos aulas juntos pelo resto dos dias, me perguntava se ele ia achar suspeito ou destino, então tive um plano. Havia duas pessoas sentadas ao lado dele, pulando duas cadeiras, então eu iria perguntar onde fica a sala de Inglês, sei que ele teria, e talvez pudêssemos ir juntos. Um sinal estrondoso se fez na sala, era o sinal da aula, isso realmente me assustava, guardei meu material rapidamente e corri para as duas pessoas, que me ajudava muito, eram meninas, era mais fácil.

" Por favor, vocês podem me dizer onde ficar sala de Inglês?" tentei ser um pouco óbvia.
" Bom, saindo dessa sala, siga.... você é aluna do que?" ela me perguntou cortando a explicação.
" Artes."
" Meu anjo, que sorte, este prédio é todo dedicado para Artes, então, fica no último andar, talvez o resto de suas matérias fiquem por perto." a outra garota sorriu gentilmente e sorri.
" Obrigada meninas." disse e elas saíram.
" Vai mesmo estudar Artes?" Gus estava parado atrás de mim, e claro eu estava bloqueando sua passagem.
" Sim, e você?" perguntei.
" Eu..." ele parou de falar, tinha certeza de ele pensaria que eu o encheria de perguntas de como um cego faria artes sem enxergar uma tela branca?
" Você pode me acompanhar?" perguntei, eu estava agindo como uma atirada.
" Mas eu não disse que faço artes."resmungou fitando seus pés e apertou mais sua mochila contra suas costas.
" Você tem jeito de arteiro, conheço de longe artistas." respondi, boa Cath.
" Você acha?" ele sorriu amarelo, dei a entender de que estava sem graça, apenas sorri com um tom de risada.
" Me chamo Catherine, mas tanto faz como quiser chamar." estendi minha mão, ele a pegou, e me pergunto como ele sabia que eu tinha estendido minha mão?
" Angus, mas pode me chamar de Gus." ele sorriu e encontrou meus olhos, eu tentava achar algo em seus olhos, mas eram negros, sua pupila parecia dilatada pois eu não enxergava cores, queria achar algo ali dentro " Pode me acompanhar?" perguntou " Eu ainda tenho que me familiarizar com o prédio."
" Não vejo problemas, estou perdida, e me sentindo envergonhada aqui." minhas bochechas esquentaram quando ele segurou meu antebraço para descer as escadas.
" Desculpa tocar em você." ele rapidamente me soltou.
" Você precisa de ajuda?" perguntei e ele suspirou.
" Não preciso." ergueu seu queixo e foi descendo lentamente as escadas.


  Subimos as escadarias principais, tínhamos apenas alguns minutos antes da aula começar, e pensando bem, talvez ele não achasse suspeito termos aulas em comum, mas a culpa me rodeava, e eu havia acabado de lhe conhecer, tinha um pressentimento de que seriamos grandes amigos. Ele se sentou ao meu lado pois eu pedi, joguei a antiga estratégia de " primeiro dia de aula, sem amigos, coitada de mim". 

" Posso ver suas aulas?" perguntei.
" Claro." ele tateou as folhas em seu caderno, haviam poucas, mas imagino que depois de um mês aquilo seria uma bagunça " Aqui." ele me entregou um papel em branco, apenas fiquei encarando, é claro que não tinha letras, Catherine sua cabeça oca "Estou brincando, eu leio para você" ele riu quando percebeu que eu estava intacta.
" Graças à Deus seu senso de humor é bom." digo com a mão no peito em modo de salvação.
" Temos.... Hum..." ele com seus dedos, das suas mãos passavam linha por linha, queria saber o quão interessante era essa habilidade. " Inlgês é agora, História, aula de Escultura, me parece interessante, por hoje é só, e você?" ele guardou a folha e como ele não podia ver fingi ver o papel.
" O mesmo." dei de ombros.
" Mentirosa." ele disse rindo " Não sou cem por cento cego." meu corpo gelou, isso explica o fato de andar bem.
" Como é?" perguntei e ele debochou de mim rindo.
" Você é tentando enganar um cego? É isso mesmo?" ele me encarou indiretamente " Ninguém nunca fez isso comigo, é legal." ele disse rindo, e sabia que tinha sido sincero.
" Estou com preguiça só isso." inventei rindo.
" Bom-dia, meu nome é William, sem Shakespeare..." ótimo um professor de inglês piadista, mas foi boa, ouvi Gus rir ao meu lado.


  Meu celular vibrou, era o Sr. Warley, respondi de imediato dizendo que já havia o visto e que estava tudo bem, eu não entendia muito bem qual era o problema, Gus era simpático, tinha sonho de ser artista, era risonho, todas ás vezes que eu o olhava ele tinha em seu rosto um sorriso plantado, talvez fosse preocupação de pai, um dia eu iria entender, disso eu tinha certeza.

  A aula de escultura foi apenas introdução, como a maioria das outras, mas pelo menos havia me apaixonado pela professora, ela era tão gentil, na maior parte do tempo parecia que tinha usado drogas ilícitas, mas certamente se usasse não seria uma professora abita para estudo, ou seria? Ela nos disse que iriamos visitar museus de arte, e iriamos passar muito tempo na prática, ela não só era professora de escultura como era de pintura, acho que teria na mesma semana, seu nome era Sra. Tribeca, nome engraçado para um bairro de New York.

  Era hora do almoço, e eu estava faminta, meu turno iria começar daqui uma hora e meia, então tinha uma hora para comer, e meia hora para chegar em casa, descansar por milésimos, pegar o carro de Abby e ir até a lanchonete.

"Podemos comer juntos?" sugeri, ele pensou, coçou a nuca e suspirou até que assentiu "Decisão difícil?"
" Não, eu ia me encontrar com outra pessoa..."
" Ah, desculpe, não tem problema, não se sinta obrigado..." o interrompi.
" Mesmo? Até amanhã então Cath." ele disse tão natural, sem se importar, que achei muito sangue frio.

 Meu primeiro almoço seria sozinha, então vamos lá. Mandei uma mensagem para Abby, ela estava em aula, talvez seu almoço já tinha sido, suas aulas eram estranhas, e malucas, tinha um pouco de manhã, e um pouco à tarde. Fui até o supermercado, mas antes enviei uma mensagem para Sr. Warley avisando que seu filho tinha ido embora, e eu tinha que ir trabalhar, ele apenas disse que iria passar na lanchonete mais tarde. Quando tinha tudo em mãos no caixa, passei meu cartão, recusado. Passei o outro, recusado, automaticamente a vergonha tomou conta de mim, dei a velha desculpa do "peguei o cartão errado" e sai de lá o mais rápido possível. Acho que não teria almoço hoje.

  Fui para o apartamento e comi um pão com pasta de amendoim, o que era minha emergência de quando não tinha comida. Isso significava que eu precisava de um adiantamento do Sr. Warley para comer, eu não queria pedir para Abby, nem para meus pais, tinha vergonha, eu sou bolsista e garçonete, me orgulho de ganhar meu próprio dinheiro, então se eu não tenho, eu não preciso, até mesmo para o almoço. Meu estômago roncava, hoje seria mais uma noite com fome. Ou eu podia comer na lanchonete... Era uma ótima ideia, a Sra. Joan com certeza ia deixar algo delicioso para eu saborear mais tarde.

Então foi isso que fiz, fui mais cedo para a lanchonete, que Sr. Warley era dono no caso, e por isso nosso vínculo confuso. Coloquei meu uniforme e pedi para o cozinheiro Jack se tinha algo para comer, ele sorridente me fez um hamburger delicioso, eram os melhores. Jack e Joan eram os mais velhos, Joan tinha por volta de seus sessenta anos, enquanto Jack, tinha seus cinquenta anos quebrados, tinha um bigode mustache, e sua barriga de cerveja redondinha. Eles eram como meus segundos pais. As minhas colegas de trabalhos eram legais, Daisy era casada, tinha quarenta anos, com dois filhos, eu era a mais nova, tinha dezoito anos, já Mary tinha trinta e oito anos, usava óculos vintage transparentes estilo gatinho, esse era o tema da lanchonete, era bem popular pelos Estados Unidos. A lanchonete tinha cores creme, vermelho fogo e amarelo, sofás listrados, mesas com seus próprios rádios, o chão quadriculado creme e vermelho apagado, balcão de café da manhã.
  
   Podia muito bem ser comparado à lanchonete onde Sam em A Nova Cinderela trabalhava, mas invés de rosa, vermelho, invés de Fiona, Sr. Warley, e invés das gêmeas malvadas.... Gus e Tess, raramente Tess aparecia, ela era como uma gerente, era doce, Gus nunca virá aqui, o conheci hoje, percebendo agora, tinham semelhanças, Tess era alta, mais baixa que Gus, olhos verdes escuros, quase castanhos esverdeados, mas o formato dos olhos e de seus lábios eram idênticos. Nunca conheci a Sra. Warley, e muito menos sei se existe uma.

  Quando terminei meu hamburger agradeci quase que de joelhos para Jack, contei a ele que meu dinheiro tinha acabado, pelo menos não poderia ter almoços luxuosos, teria que comer em casa mesmo, ele me olhou com pena pois sabia da minha situação, mas odiava aquele olhar e por isso tratei de servir mesas.

  O movimento estava razoável, alguns adolescentes de ensino médio, dois casais de idosos, e um grupo de universitários, a lanchonete era separada por zona, tinha a minha, de Mary e de Daisy, já que Joan servia o balcão, a nao ser quando estivesse muito cheio, Daisy ajudava Joan, mas quando um cliente não sai da minha zona, eu não posso ir embora, mesmo que passe uma, ou duas horas do meu horário, isso era muito chato, eu tinha que esperar o último cliente sair para poder ir embora todos os dias, e eu sempre me atrasava.

" Oi " assim que me aproximei da mesa, talvez seria a última da noite " Eu gostaria de um milkshake de chocolate, e um hamburger bem caprichado, por favor."
" Claro, trago num instante." sorri anotando e me virei.
" Você viu que gostosa?" ouvi as vozes atrás de mim e parei, olhei para os garotos e me voltei a eles.
" Vocês querem um autógrafo?" perguntei sorridente.
" Queria outra coisa." o mesmo que fez o comentário disse.
" Foi mal, ele é idiota, ele não quis dizer isso." o garoto que fez o pedido me disse " Ele me faz passar muita vergonha, sério, foi mal mesmo."
" Mas ela é gostosa vou fazer o que?" o garoto que era um babaca ergueu os ombros com dúvida.
" Achei alguém da sua idade." sorri.
" A propósito, me chamo Logan, e ele é meu primo, está no ensino médio, você entende?" ele arqueou a sobrancelha.
" Claro, líderes de torcida, futebol, baile, tudo uma maravilha." sorri triste, mas era meu melhor sorriso, dei de ombros se sai de lá por entender que ele estava na puberdade, querendo uma namorada urgente e não sabia como flertar, revirei os olhos confusa com essa situação.
" O que foi meu anjo? Babacas?" Joan me perguntou pegando o pedido de minha mão e eu assenti rindo " Qual foi dessa vez? Gostosa? Safada? Hum espere..."
" Acertou de primeira." rimos, era tanta história e um repertório inteiro de insultos ao meu ver, isso era um assédio sem fim, mas se fosse para ter, que fosse de babacas dessa idade, inofensivos, do que os bêbados da noite.
" Catherine, Sr. Warley está aqui." Jack disse de dentro da cozinha.

  Assenti e fui até o escritório do mesmo, onde a papelada toda ficava, bati na porta antes de entrar e ele sorriu ao me ver, me sentei e logo ele começou a falar.

" Como foi hoje?" ele me perguntou.
" Gus é um garoto normal, sem ofensas Sr. Warley, mas por qual motivo eu tenho que ficar de olho nele?" perguntei e talvez ele tenha achado ruim.
" Sem querer ser rude Catherine, mas são meus motivos, e quero que o observe e seja amiga dele, não que o dinheiro simbolize amizade de vocês, apenas é um incentivo, ele pode ser difícil e..." ele continuou falando mas parei de ouvir quando ele disse que ele era difícil, ele era tão doce " Entendeu?"
" Claro, sim senhor, bom foi um dia normal, tivemos aula juntos, ele está bem empolgando." contei e seu sorriso sumiu, não era isso que ele queria? Que o filho se desse bem na faculdade?
" Eu queria que ele fizesse outro curso, mas bom, vamos vendo como vai indo, este é o pagamento da semana, vamos nos encontrar todas segunda-feira, e quero que você me dê um relatório em troca" pediu me entregando um envelope "Quinhentos dólares por semana."
" Sr. Warley, isso é muito..." chocada com o dinheiro ele me olhou.
" Não é muito para o que você terá que fazer nas próximas semanas, apenas seja você Catherine, por isso te escolhi." ele sorriu maldoso, mas não tinha entendido nada " Pode ir." ele me dispensou e eu guardei o dinheiro na bolsa.

  Se esse dinheiro envolver sujeira, pode ter certeza que ele será devolvido com prazer, independente do meu sonho, minha mãe me ensinou que dinheiro não vale nada quando a felicidade de alguém esta em risco.